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Chegou há algumas semanas minha edição do Gothic&Lolita Dictionary (ゴシック&ロリータ語辞典) escrito pela Suzuki Mariko (antiga editora da Kera e Gothic&Lolita Bible) em conjunto com uma série de outras figuras proeminentes da cena japonesa.


Estava pensando como poderia postar aqui no blog, já que, como esse é um projeto independente, não tenho a intenção de disponibilizar scans ou transcrições de partes do livro que não tenham sido disponibilizadas online pela própria autora (como foi o caso da tradução da entrada sobre Gothic Lolita que postei aqui no blog!). Lembrei então que a Heidi fez um post bonitinho de "Read with me" com uma zine que ela comprou, e decidi que esse seria o formato ideal para apresentar esse livro!

Então, o que é o Dicionário de palavras Gothic&Lolita? Esse é um livro em que a Mariko pretende apresentar pelo menos 420 verbetes diferentes relacionados à moda. Tem de tudo: desde objetos como a Iron Maiden até atores populares como Bela Lugosi, sempre apontando como eles colaboraram de algum modo para a cena.

 Para além disso, o livro tem uma série de entrevistas com pessoas como o Mana-sama, designers de marcas como Angelic Pretty, e Misako Aoki -- cada qual dando sua perspectiva sobre a moda. 

É um livro bem completo para quem gosta de pesquisar sobre a história da Moda Lolita e as influências que marcaram seu surgimento. Mais do que isso, é um livro que coloca sob o holofote também o aspecto "gothic" que por vezes é suplantado no Gothic & Lolita (sim, estou me referindo ao livro do Novala que saiu há pouco ¬¬)

Vamos então ao conteúdo!

Começando pela capa (que é um daqueles dust covers que tudo que compro do Japão tem), temos um "cinto" de papel com as fotos de Mana, Misako e Mihara Mitsukazu informando de sua participação no livro. A capa em si é uma representação daquela tapeçaria famoooosa da "Lady and the Unicorn" que já apareceu em estampas da Juliette et Justine mais de uma vez.

A capa de dentro, com ilustrações de Shunsuke Hasegawa (antigo designer da Putumayo), é feita de um papelão mais grosso.

Como você pode notar, eu censurei os textos principais do livro. Todas as fotos estão editadas ou embaralhadas, de modo que o conteúdo mesmo não vaze por aí (e a culpa seja minha auhuhah). Na primeira página com texto de fato, a autora se apresenta e aponta o impacto que a imagem da "menina europeia" tinha no Japão. Ela comenta como até hoje muitas sonham em ter a aparência estereotipada da jovem europeia ideal que era descrita nas revistas da época, e adiciona então uma pequena nota sobre as bonecas Bunka que contribuíram pra difusão desse tipo de estereótipo. 

As bonecas Bunka eram bastante populares ali na primeira metade do século 20 no Japão, e talvez você já tenha visto delas por aí! o YOH mesmo lançou uma coleção maravilhosa de Bunka Gothic Lolita há alguns anos, e a Baby também tem sua própria versão. A Bunka ningyou era desse jeitinho aqui:


 Em 1980~90 elas tiveram uma ressurgência, e depois agora em 2010 +/- algumas marcas voltaram a relançar essa bonequinha.

Na página seguinte há uma introdução aos conceitos de Alice, Gothic e Lolita, discutindo como são coisas que parecem se contradizer mas que encontram na moda um ponto de convergência.

O índice, na página seguinte, detalha o conteúdo do livro. O dicionário com verbetes mesmo começa ali na página 38 e termina na 187!


Logo então começa uma parte muuuito legal de apresentação dos estilos que contribuíram e constituíram a Moda Lolita ao longo dos anos. Antes de passar para as páginas ilustradas porém, a autora faz uma coisa que achei 10: ela lista, ali na página da esquerda, quais os conceitos que ela assume ao longo do livro.

Hoje em dia, a pesquisa da Moda encontra disputa em uma série de conceitos. Não existe muito consenso sobre a origem dos termos, sobre onde exatamente começou o estilo, sobre quem nomeou o quê etc. Por isso, quando a Mariko coloca essa página, ela reconhece esse campo de discussão e, sem dizer "eu estou certa, o resto está errado" ela diz que por razões didáticas algumas coisas precisam ser assumidas nesse livro.

As partes sobre os estilos, então, trazem uma ilustração de um coord médio dentro do estilo que apresenta, explicação sobre o seu surgimento e ápice de popularidade, e uma listagem das peças esperadas na composição do coord (bem como suas variações).

 Em seguida temos uma visão geral do estilo ao longo dos anos. A autora volta no século 18 para comentar sobre os elementos das roupas dessas eras que foram sendo resgatados em nosso tempo, passando de século em século até culminar no século 21.

Sem entrar em nomes de marcas etc., achei bem legal ver o ponto de vista de quem está no mercado editorial da Moda Lolita desde sempre! Ela comenta sobre as mudanças que sentiu ao longo dos anos como editora da Kera e GLB, e como isso desagua hoje em dia. 

E, então, a tão aguardada entrevista com o Mana! É um texto bem legal sobre a confluência dos elementos que levaram ao estabelecimento das convenções do Gothic Lolita, bem como o papel do Mana nesse processo. Ele comenta sobre suas impressões, sobre como o estilo conversa com o movimento gótico no Japão e então sobre como ele foi o primeiro a chamar o estilo de "Gothic Lolita" em um meio de comunicação. 

A autora é bem entusiasmada com essa afirmação de que foi o Mana quem batizou o estilo, e isso volta diversas vezes nos artigos relacionados ao Gothic & Lolita no livro.

Outra parte legal é sobre a história da renda! São umas 3 páginas contando sobre os tipos de rendas diferentes que são usadas nas roupas da Moda, como elas são importantes no visual geral Lolita e então sobre como elas foram sendo incorporadas nas peças. Tem uma dupla de páginas (na imagem acima) dedicada às rendas da Angelic Pretty, e as designers da marca vão comentando sobre os processos de impelementação de rendas em suas peças.

E daí então começa o dicionário. Como disse, ele vai em quase 160 páginas de termos, ilustrações e explicações de como as coisas apresentadas interagem com a moda.

Aqui tem um exemplo de como até mesmo Bela Lugosi não escapou do livro, haha!

Achei uma pena, porém, que não entrou na listagem bandas como Buck-Tick e L'arc~en~ciel. Apesar de passarem assim bem por cima das bangya, a autora reconhece a influência delas na moda, mas, mesmo assim, não colocou as bandas em si como verbetes (e colocou Piratas do Caribe...). 

Outra coisa foi como a autora deixou de lado também a cultura idol ali dos anos 80 no Japão e como elas influenciaram a estética de Lolita em sua fundação. Tem uma série de textos e painéis (japoneses!) que tratam dessa confluência, mas no livro meio ficou de lado boa parte do cenário musical que caminhou lado a lado com a Moda Lolita.


Logo após o fim dos verbetes tem uma listagem de referências pesquisadas no livro. Pra mim, que gosto de sair lendo tudo que há sobre a moda, foi um achado! É uma lista bem legal de conteúdos que eu não conhecia.

Queria que tivessem mais livros e artigos listados, porém. Mas entendo que boa parte do livro é também sobre as impressões particulares de quem participou da Moda no Japão.

 

A última página, por fim, traz uma timeline das marcas japonesas que engataram com o movimento gótico e, depois, Lolita. O comentário final da autora trata do modo como as disputas entre o que faz o gótico e o que faz Lolita aconteciam entre quem usava a moda no Japão ali nos anos 90. Ela comenta como algumas garotas não gostavam de ser associadas às "maids" que também circulavam pelos bairros fashion e como isso criava uma sensação de desconforto entre quem usava a moda e o público geral, que fazia esse tipo de associação. Nos anos 2000, a autora comenta, muita gente recusava o rótulo de Lolita, e essa foi uma onda na qual várias marcas surfaram também. 

E... é isso! Depois dessa página tem uma pequena biografia da autora, suas redes sociais etc.
Eu gostei bastante do livro como instrumento de pesquisa! Tem algumas informações que parecem "emocionadas" em algumas partes, mas, no geral, dá para cruzar bastante do que foi dito aqui com outros livros, relatos e textos sobre a moda. 

Se você gosta de pesquisar sobre o estilo, o livro certamente vale a pena!

17:49 4 comentários

 

Chegou hoje minha edição do Gothic & Lolita Dictionary / ゴシック&ロリータ語辞典! Estava bem empolgada por esse volume, principalmente depois do fiasco que foi o "Lolita Fashion" do Novala.

O livro foi curado com uma série de designers famosas do meio, e promete trazer definições sobre os principais elementos que circulam ao redor da Moda Lolita no Japão. Depois eu faço uma review da edição que, apesar de pequenina, é muito bem feita!

Para celebrar a chegada do livro, decidi traduzir livremente duas entradas sobre o Gothic Lolita no livro! Tem outros capítulos sobre outros subestilos, mas vou traduzir só o que me interessa, hehe image

A primeira parte é um "disclaimer" do livro sobre o conceito de Gothic Lolita que eles levam em consideração. Achei legal que eles reconhecem que esse é um campo em constante disputa, mas que pra fins de fazer o texto andar eles se fixaram em um (que eu não concordo, mas enfim).

A segunda parte é uma apresentação do que era o Gothic Lolita em 1998. Não tem nada muito novo para a gente, mas é mais uma esquematização do estilo em contraste com outros subestilos.

 E é isso! Boa leitura! image


O nome: Foi batizada "Gothic Lolita" em 1998 por Mana (do antigo MALICE MIZER). É também simplificada para "Gosu Rori" por entusiastas.

As roupas: Criada principalmente por marcas da região de Kansai e lançada em Tokyo, em 1998, esse estilo de roupa é uma mistura da estética Gótica e da estética Lolita.

O objetivo fashion das Gothic Lolita é: Uma princesa kawaii que vem do lado escuro. (escreveram literalmente: "dark Side no kawaii princess")

*Ao longo desse livro entendemos que houve um tempo em que roupas Lolita completamente escuras eram chamadas de Gothic Lolita, mas, se a roupa não tem elementos góticos, ela não pode ser chamada de Gothic. Do mesmo modo, se apenas a roupa é escura, mas a pessoa está usando cabelo, maquiagem e acessórios que evocam esse "dark side", daí consideraremos ela como Gothic Lolita.

* Nos anos iniciais do Gothic Lolita, "Gothic", "Lolita" e "Gosurori" eram às vezes usado para se referir ao "Gothic Lolita", então quando nos referirmos a essa época do passado é normal que usemos essas expressões empregadas nesse tempo.


 

Ano de 1998 _ O Nascimento do Gothic Lolita 

Osaka, anos 90: roupas pretas cheias de babados feitas por uma marca independente de Amerikamura ganham, pela primeira vez em 1998, o nome "Gothic Lolita" 「ゴシック・ロリータ」 e "Gosu Rori"「ゴスロリ」. Essas roupas são caracterizadas pelas longas mangas princesa que abrem em um leque a partir dos cotovelos e pelos vários laços e babados. O headdress antes usado por outros estilos, no Gothic Lolita tornava-se preto, cedendo espaço também para um tipo de cartola pequeníssima que não cobria todo o cabelo. Além dessas alternativas, o bonnet tornava-se bem popular.

Elementos do Gothic Lolita: items de 1 a 5

  1. Mini Cartola, Headdress e Bonnet;
  2. Corte hime com franja grossa e reta;
  3. Mangas Princesa;
  4. Saia armada franzida com babados;
  5. Sapatos de tiras com solado grosso.

 

⇒ Esse estilo era comumente visto no início do Gothic Lolita. As cores básicas eram preto e branco. 

⇒ O nascimento do Gothic Lolita foi o gatilho necessário para o nascimento de várias outras marcas Lolita. Seu nascimento influenciou também outras marcas indies da região de Kansai que já existiam em outros estilos, afetando principalmente o modo como os adereços e os tecidos, principalmente em cores como preto e bonina, começaram a ser implementados em uma estética mais chic.

⇒ Por volta dos anos 2000 todas as roupas nesse estilo eram chamadas "Gothic Lolita", mas, posteriormente, mesmo essas roupas pretas, quando usadas em um estilo que não contemplasse a estética gótica, podiam ser classificadas no gênero "Sweet Lolita" 「甘ロリ」em vez de Gothic Lolita.

 

Não tenho muito a comentar além do "objetivo" mencionado na primeira parte. A ideia de "princesa" das trevas é algo que realmente não passa pela minha cabeça, mas entendo que a ideia mental de "princesa" é algo bem diferente (e romantizado!) no Japão de 1998 quando comparado com o que temos por aqui — que é um tanto de herança da Disney também. 

image

O texto, como é bem claro, estabelece os pontos de partida do livro. Ele não funciona como regra vexatória, nem diz que todas as pessoas vestiam, pensavam e se enxergavam desse modo, mas que essa é a ideia generalizada do estilo quando olhamos para o passado com as lentes do agora. Mas achei legal darem ênfase na importância do Gothic Lolita para o estabelecimento do estilo, no geral. 

Acho sempre suspeito quando querem nomear uma pessoa específica como "aquela que criou" ou "aquela que batizou", como se não fosse na verdade um processo de confluência de referências e vivências que originasse modas de rua (e permitisse que elas pegassem). Existe uma explicação para esse batismo do estilo pelo Mana em uma entrevista no próprio livro, mas, como disse, eu não sairia tomando como verdade antes de pesquisar mais sobre isso.

image


13:38 No comentários


No último post de tradução que postei a Suellen pediu uma tradução de Kamikaze Girls e, como eu já tinha o livro aqui (e já tenho outras traduções do Novala no blog), decidi postar. image

Ganhei esse livro (edição de 2002) há um tempo, e confesso que só tinha dado uma bizoiada nele. Apesar de entender a relevância de Shimotsuma Monogatari para a Moda, não é o tipo de leitura que eu gosto (discutível... do que eu gosto? Ultimamente só tenho lido coisas pra faculdade e... quadrinhos coreanos!... mentira, também leio light novel coreana. Talvez seja disso que eu goste... histórias que tratem mais dos sentimentos das pessoas...talvez... talvez por isso No Longer Human seja um dos meus livros favoritos... image há muito o que se pensar. Pode não parecer, mas esse tipo de leitura tem uma relação bem forte com o "gótico" da Moda Lolita.).

Essa edição vem com uma capa de proteção com as atrizes do filme, e uma capa simpleszinha de papel por baixo:

 

A biografia do Novala está logo na orelha da capa externa:


No índice temos apenas a marcação de Shimotsuma Monogatari e uma parte final com comentários de Nobuko Yoshida (吉田伸子) - que eu não conheço.  image


Os comentários finais:


 Mas enfim, como havia dito, vou trazer o primeiro capítulo traduzido! (Só o primeiro, não tenho tempo ou paciência para uma tradução completa image Além disso, imagina traduzir tudo e depois ter de tirar da internet por conta de direito autoral...? image). Claro que... no caso de Kamikaze Girls, os capítulos não são divididos. Estou tomando então o espaço de parágrafo maior que existe de X em X páginas como marcação de capítulo.

Separei os parágrafos em blocos e deixei as notas de tradução logo abaixo de um cada deles. image Fiz algumas adaptações para que o texto funcionasse em nossa língua, assim, é uma tradução livre e não pode ser usada para fins comerciais.

*Caso queira compartilhar em algum lugar, coloque o link direto para o blog... image (já privei várias traduções antigas aqui do blog por conta de gente folgada, me custa menos parar de traduzir)

 

Uma verdadeira lolita deve abrigar um espírito rococó e levar uma vida rococó. O Rococó, que dominou a França da segunda metade do século XVIII, foi o período mais elegante e opulento da história. Na história da arte, Rococó refere-se ao período por volta de 1715 a 1770, e veio logo depois do Barroco, cujo ideal de beleza de baseava na sobriedade e magnificência da fé católica. A valorização de ondas e curvas em lugar de formas angulares apareceu nesse período apenas porque deixar as coisas arredondadas é fazê-las mais fofas. O dinamismo masculino do majestoso Barroco era um pouco sufocante e sério demais para soar interessante, então foi criado esse estilo maravilhoso, delicado e feminino que, enquanto tinha a reputação de ser belíssimo, era ainda muito frívolo.

O nome rococó deriva da antiga palavra francesa rocaille, que significava "pequena pedra deformada" (sinto pelo academicismo; peço aos estúpidos que aguentem um pouco mais). Quando chegou ao seu período de glória, o Rococó era tão desprovido de intelectualidade que passou a ser visto como uma mancha na história da arte. Por que não fingimos que esse período não existiu? Tudo que passou parece um tanto estúpido agora, Sim, fomos forçadas a acreditar que esse tempo nunca existiu. É por isso que os pintores do período rococó, como Watteau e Boucher, são hoje mais desvalorizados do que merecem.

image Aos estúpidos: No original "頭の悪い人" = Pessoas ruim da cabeça, pessoas lentas da cabeça etc.
image Forçadas: em japonês os verbos não estão conjugados e, como você deve saber, não tem marcadores de gênero. Estou colocando no feminino quando chego nessas situações por assumir que é a Momoko quem está falando conosco. Infelizmente não tenho como reproduzir o mesmo efeito com o português, se não fica: "sim, forçar a acreditar" ;"estúpido parecer" etc.

Parece que aqueles que conhecem a história da arte não só desejariam que o rococó, como período artístico, não tivesse existido, mas também eliminariam tudo que se relacionaria a ele, partindo da  moda até os costumes e modos de vida. Ao que me parece, mesmo quando estudamos a história da civilização, as explicações sobre o período Rococó são super compactas, gerais e recheadas de comentários nada positivos.

Pois bem, quando pensamos em personagens representativos do rococó, a primeira que nos vem à mente é Maria Antonieta, que gozava de uma vida de luxos no Palácio de Versalhes e que, quando o seu povo não tinha dinheiro nem para comprar pão, deixava frases como: "Oh! Pois se eles não têm pão, que comam brioches!". Suas palavras foram capturadas então pela News Station e Hiroshi Kume fez com que ela fosse tomada como a encarnação do mal e conquistasse o ódio do povo, povo esse que a colocou sob a guilhotina depois de encenar uma revolução (a verdade é que se estivéssemos falando de alguém representativo do rococó, seria a Madame de Pompadour, que, graças à sua beleza e inteligência, subiu da base em direção ao topo da sociedade como governante à sombra da corte de Luís XV. Na verdade, não estaríamos exagerando se disséssemos que foram de seus gostos e hobbies que emergiu a cultura rococó). Por esta razão, talvez seja inevitável que o rococó seja entendido como a antítese da liberdade e da igualdade. Apesar de tudo, e do que os outros digam, eu vivo no rococó. 

image Hiroshi Kume: como dá para inferir, foi um apresentador de jornal da TV Asahi que deixou marcas importantes na televisão japonesa do fim do século XX.

Boucher, um dos pintores representativos do período, e que refletiu de forma ainda mais exagerada os elementos rococó das composições de Watteau, seu contemporâneo Diderot (não sei muito bem o que esse homem fez. Só sei que ele compilou um enciclopédia. Algo como um Kyōsuke Kindaichi francês? Kindaichi compilou um dicionário japonês... Talvez. Ou não.) declarou o seguinte: "Ele é moralmente corrupto, não entende de elegância, não conhece a verdade, é alguém que nunca viu a Natureza e a quem falta bom gosto". Ele também disse que as pinturas de Boucher nada mais tinham do que " uma elegância enjoativa, galanteios fantasiosos, coqueteria, simplicidade, mudança, brilho, pele maquiada e obscenidade". Esse cara, Diderot, se contradiz horrivelmente em suas afirmações, dizendo, por um lado, que não entende de elegância e, por outro, que suas pinturas eram elegantes.  No entanto, suas duras críticas a Boucher nunca chegaram à cultura Rococó em si.

image Kyōsuke Kindaichi, no original, "金田一 京助", foi, junto de seu filho, editor das primeiras edições do dicionário Shin Meikai Kokugo Jiten (新明解国語辞典 "Novo dicionário japonês compreensível"). Kyouske é muito famoso no Japão, principalmente na área de estudos de linguagem e sobre os povos Ainus.

Apesar de tudo, os amantes do Rococó levam como elogio essas críticas que utilizam da pintura de Boucher para dar uma imagem negativa dessa cultura. Respeitar as emoções doces, a elegância e a fantasia acima da realidade e da moralidade; mergulhar na paixão do momento em vez de tentar dar sentido à vida diante de um futuro que não conhecemos; deixar de lado a lógica e os costumes para valorizar a fruição do que vivenciamos no momento. Esse é o coração do Rococó (Eu tentei. Você pode rir). Se, por mais que pensemos nas coisas, obtivermos resultados angustiantes, e se mesmo que alcancemos o resultado esperado, se ele for enfadonho ou carente de beleza, nós o rejeitaremos. Se você gosta de algo, mesmo que tenha sido feito meio que como uma brincadeira, você deve dar valor a isso. O Rococó fundamenta-se no individualismo extremo, no não-julgamento dos gostos dos outros, na tomada de decisões com base no que se sente: "gosto disto" ou "não gosto daquilo", sem levar em conta as opiniões e esforços dos outros. O Rococó é muito mais anárquico que qualquer outra ideologia.. Somente através deste princípio chamado Rococó, em que o elegante é vulgar e o precioso é extravagante e desafia a lei, posso encontrar o sentido da vida.

image "Esse é o coração do Rococó". No original: "それがロココのココロなのです" É um trocadilho com os sons "rokokó" (rococó) e "kokorô" (coração).

Os bebês choram quando são arrancados do ventre da mãe, irritados por não entenderem os porquês de serem colocados para viver neste mundo absurdo. Pouco depois, lhes é revelado seu destino de viver com enorme desesperança, e pensam: "Então você está me forçando a viver neste mundo irracional, hein? Pois escute o que penso: não me queixarei de forma ingrata e amarga por ter que viver uma vida estéril; Viverei desobedecendo às regras que me obrigam a levar uma vida pacífica e tranquila; Viverei fazendo o que eu quiser." Quando o bebê perceber isso, ele rirá pela primeira vez. Portanto, não se comova ao ouvir um bebê rir pela primeira vez. Olhe atentamente, porque enquanto riem, seu olhar permanece fixo e penetrante. Apesar disso, a maioria das pessoas perde essa determinação à medida que envelhece. À medida que recuperamos o bom senso, começamos a seguir as regras sociais que antes pretendíamos ignorar. Mas ainda há alguns que não esqueceram essa predisposição desde o dia em que riram pela primeira vez. Estas pessoas, mesmo que façam chorar os próprios pais, mesmo que sejam condenadas a uma vida de pobreza, ou mesmo que recebam uma bronca pelo seu comportamento num programa de televisão como o de Monta Mino, não terão outra escolha senão seguir o estilo de vida Rococó.

image Monta Mino é um apresentador de televisão japonês. Ele apresentava programas de absolutamente todos os tipos na televisão japonesa, você pode imaginar que é algo da fusão de João Kleber, Jô Soares e Rodrigo Faro (por mais contraditório que isso pareça!).

O estilo “Lolita” é definido como um estilo de moda urbana típico do Japão. Para mim, porém, mesmo que Lolita seja uma moda, ela é algo muito maior do que isso. É também como um conjunto de valores pessoais absolutos e imutáveis. Usar uma blouse com babados, um espartilho na cintura, uma saia sobre uma anágua e o headdress mais absurdo possível são minhas formas de mostrar dedicação ao Rococó. Talvez, se eu não destacasse tanto vestindo dessa maneira eu teria mais facilidade de fazer amizades e de ser popular entre os garotos. Mas quanto mais me dão esse tipo de conselho, mais minha alma Lolita se anima, e mais minha determinação de dominar o estilo se fortalece.

image O Estilo Lolita: caso não saiba o que é a Moda Lolita, aqui no blog tem um guia de introdução nesse link.

O período Rococó, pelo que já vi e li em diversas obras, foi uma loucura. As senhoras do período Rococó podiam chegar a lugares que as lolitas de hoje, discriminadas pelos outros, não conseguem chegar mesmo com maior esforço. Elas apertaram os espartilhos ao limite para conseguir cinturas impossivelmente finas, embora não conseguissem ficar em pé por muito tempo. O menor estímulo causava dificuldade para respirar e desmaiavam, então outros tinham que carregá-las. Isso lhes deu charme como damas. E foram esses valores que prevaleceram durante o período Rococó. O cabelo era preso cada vez mais alto, e um grande chapéu era colocado por cima. Foram necessárias inúmeras horas e assistentes para finalizar os penteados, e graças a elas a altura das damas podia praticamente dobrar. 

No período Rococó havia muitas damas que, usando a vestimenta típica da época, não conseguiam passar pelo saguão de seus casarões nem mesmo ajoelhando, e por isso acabavam não frequentando as festas com as quais haviam se comprometido. Esses comportamentos estúpidos, que pessoas como Diderot consideravam modas tolas e distantes do bom senso, só podem ser admirados por aqueles de nós que abrigam o espírito Rococó. Podemos ser felizes priorizando o bom senso? Não nos disseram que a felicidade é alcançada através do sofrimento? Se tiver que sofrer, prefiro a infelicidade. Porque nós, pessoas do Rococós, sabemos que não há nada mais infeliz do que o dia do nosso nascimento.

image Confio no seu senso crítico e na sua capacidade de entender que essa é a visão da narradora (não confiável).

Também dizem que o Rococó é um período obsceno no qual, por baixo do conceito de elegância, era possível encontrar a adoração dos prazeres mundanos. Eu... Eu não gosto dessas coisas "obscenas", é muito vulgar... É verdade que, aos olhos dos estudiosos contemporâneos, a vida das damas do Rococó pode parecer algo escandaloso. O dia de uma dama normal era regido pela seguinte agenda:

Por volta das onze da manhã você acorda. Enquanto o cachorrinho que você tem em seu quarto late, você se deita em um dos lados da cama e espera que ele suba enquanto você esfrega os olhos preguiçosamente. Cansada de ficar enrolando, você sai da cama, abre um pouco as cortinas, verifica o tempo e fecha novamente deixando o quarto no escuro. Você toca uma campainha e chama a empregada. Enquanto você toma, de gole em gole, o chá que ela trouxe, outra empregada aparece. Agora que ambas estão no quarto, é hora de se vestir. Elas tiram sua camisola e colocam você em uma roupa íntima simples (você não faz nada por si só), e quando terminam, mesmo que você não esteja doente, cada uma delas agarra um de seus ombros e lentamente arrasta você para a penteadeira. Aqui elas demoram para fazer sua maquiagem e, quando terminam, te levam para o closet onde você escolhe suas roupas. Depois, a comida. E aí, até o anoitecer, você passa o tempo fazendo caminhadas, jogando cartas (que parece bonito escrito assim, mas é sobre apostas, né? Apostas...), andando de barco ou a cavalo. À noite você vai a recitais de música, vê peças de teatro, se diverte no baile... Claro, você come quando precisa. Você toma o tempo que for preciso com pratos deliciosos, grandes porções e escolhendo avidamente o que deseja comer. À medida que a noite avança, atividades mais indecorosas são praticadas. Para o povo rococó não se tratava de coisas indecentes, mas sim de uma espécie de jogo, algo como um esporte. E logo depois, ir para a cama. Embora se possa dizer que é um estilo de vida preguiçoso e obsceno, não é um estilo de vida puramente estético?

Entre o povo rococó, vários tipos de entretenimento tornaram-se moda. De todos eles, o mais difundido foi o bordado. Hobbies como bordar, ler etc. eram valorizados como atividade de fruição individual entre mulheres nobres desde antes do Rococó mas, por algum motivo, desde o início desse período, os cavalheiros também se sentiram atraídos por eles.

 Dizem também que o Rococó foi um período de feminização dos homens em termos de vestuário e outros aspectos, mas ainda é cômico imaginar honrados cavalheiros barbudos de boa posição ocupando-se com assuntos militares e políticos enquanto se divertem consertando seus bordados.

“Ei, Lorde Simon, eu dominei o ponto duplo da manta!”
“Que legal, Lorde Saxon! Sou um pouco desajeitado e até um tanto lento na costura..."
"Depois da próxima caça à raposa, traga o giz, o bastidor e as agulhas, que vou te ensinar."
"Ah , muitos obrigado. Ei! Que tal começarmos um clube de bordado com alguns meninos e tendo você como líder?”
“Isso pode ser bom.”
“Mas vamos manter isso em segredo das mulheres. Mesmo que elas descubram, não podemos deixar que participem porque as mulheres não levam essa prática a sério. Vamos organizar também um intensivo no verão!"

Ah, que tolice o Rococó! 

Mas a beleza suprema só pode existir nos limites da tolice.

image ponto duplo da manta: Em katakana no original: "Double blanket stitch". Sem ideias de como traduzir isso para o português.

 

E é isso! Espero que tenham gostado desse comecinho de Kamikaze Girls. image Acho que a escrita aqui é bem melhor do que na PatchWork, mas continua não sendo o tipo de escrita que eu gosto de ler. O jeito como ele "enrola" nesse início é importante para dar a dimensão da Momoko, mas eu fico bastante impaciente com a ação que não se inicia.

Não acho que é um recurso estético ""proposital"" na escrita dele (se não só o teríamos aqui em SM), mas essa suspensão da ação mostra bem, né, o modo como a própria Momoko acredita ser experimentado o Rococó. image

Falando nisso, essa parte final sobre o bordado é especialmente relevante. Se você já viu o filme antes vai lembrar que é justamente essa dedicação da Momoko para o bordado que permite que ela customize um vestido, se envolva com a BABY etc. Gosto desse tipo de pista de antecipação do enredo, valoriza bastante a releitura! image

Mas enfim, ta aí.  

image

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Laura Ribeiro
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