O mini documentário "Sugar Coated" foi lançado em 2013 pela 72U (como parte de um trabalho de trainees) numa época bastante fértil pra produção de conteúdo sobre Moda Lolita no audiovisual.
Na época do lançamento teve um tanto de drama por conta da apresentação de apenas 5 garotas (com entrevistas e créditos ao final) de um total de 15 selecionadas e entrevistadas. Natural que as pessoas que ficaram de fora se sentissem desapontadas, principalmente por ter sido um convite à comunidade (de Los Angeles) em si, mas, no final, o documentário acabou ganhando boa repercussão e ainda circula com comentários positivos pela internet.
Eu cheguei a ver na época do lançamento, mas agora, 10 anos depois, quase não lembrava mais do conteúdo. Decidi rever então e tomar algumas notas sobre o vídeo.
O documentário não tem muito mistério: são 10 minutinhos de uma filmagem meio dramática (me lembra reportagem do Fantástico sobre algum drama ou trauma), umas cores bem bonitas e o texto quase todo saindo da boca das entrevistadas.
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Foto de Shachar Aylon @ Behance |
Em vez de fazer um "o que é a moda?" tão comum nesse tipo de produção, o mini documentário foca nas experiências individuais de 5 entusiastas da Moda Lolitas de Los Angeles. Tudo o que vemos e ouvimos é sobre a vivência daquela pessoa na Moda Lolita.
Sobre experiência na Moda
Uma coisa que parece óbvia à primeira vista é a questão da experiência individual. Parece óbvia, eu repito, porque, na prática, não é. Constantemente vejo pessoas que tentam emular as experiências na Moda de outras pessoas, ou que tentam comparar a sua experiência com figuras como Misako, ou RinRin, por exemplo, e ficam frustradas. Têm ainda aquelas que tentam impor sua experiência para outras entusiastas, ou que reconhece sua experiência como a única válida.
A Moda Lolita, como expressão, não encontra um estado cristalizado, e acho que esse documentário lembra a gente bem disso. Inúmeros fatores moldam as nossas experiências: nossas individualidades, nossa localidade, questões de gênero, de raça, de classe, de mobilidade, de religião, de acesso digital, de idiomas, de expectativas que recaem sobre nós, de planos para o futuro, de comunidade ao redor, de relacionamento com o diferente, e por aí vai. Não tem como imaginar que a experiência na Moda seja idêntica para duas pessoas.
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Foto de Shachar Aylon @ Behance |
Vendo o vídeo, eu penso como a experiência já é diferente para pessoas que usam subestilos opostos como o Sweet e o Gothic. Como alguém que cai mais pro lado do Gótico / Clássico, minha experiência é diametralmente oposta à daquelas que usam Sweet aqui na mesma cidade. O tipo de gente que me aborda na rua, o modo como sou lida e as discussões que envolvem o estilo são diferentes, mesmo que tenham, no fundo, uma mesma origem.
Lolita não me ajuda a escapar da realidade, nem a superar traumas, ou é o único modo pelo qual expresso minha interioridade, mas sei que para muita gente todas essas questões são verdadeiras.
E isso não faz a experiência menos ou mais real.
Sobre "Brolitas"
Achei bem legal que ao introduzir Jordie não usaram o termo "brolita". Mesmo ao final do documentário, quando os créditos sobem, todas as pessoas aparecem listadas como "Lolitas". Não é mais o caso da Jordie, que hoje em dia opta pelos pronomes femininos, mas acho curioso que tenhamos um termo para diferenciar "homens que usam Moda Lolita" de todo o resto.
Apesar de hoje esse aspecto ser menos central, a Moda ainda retém um tanto daquela ideia de exagerar nas expectativas que recaem sobre a performance do feminino (não exclusivo às mulheres) como via de contestação. Ter um homem usando a moda adiciona uma nova camada, mas sem apagar essa anterior. Não existe a "Moda Brolita" como entidade separada de "Moda Lolita". De maneira geral, são as mesmas regras na composição do visual, independente do gênero de quem a use. Serve como meio de destacar o gênero da pessoa que se veste num esquema binário (as outras são A e eu sou B).
Tem gente que vai preferir, até para demarcar mesmo esse espaço por uma série de questões pessoais e de reafirmação de identidade mesmo. E é óbvio que tá ok. Mas, pensando de novo sobre o assunto, talvez seja questão também de terminologia. Não vejo "Lolita" como identidade para mim, no sentido de dizer "sou uma Lolita". Prefiro dizer que uso Moda Lolita, assim como uso outras modas e não "sou" elas ou a subcultura que as envolve. Dizer, "ele é Brolita", daí, também não encaixa. Diria que ele "usa Moda Lolita" do mesmo jeito que digo para mim. Ele não está usando nada diferente, é a mesma moda.
Tô falando isso depois de ter feito um zine chamado "Brolita", huahuahua! Mas enfim, cada uma faz o que quiser (acho que é a frase que mais repito aqui no blog). Eu fiquei surpresa de, naquela época, não terem usado o termo pra Jordie no vídeo. Conheço pessoas que preferem usar o termo no profile e nas hashtags. Conheço outras que não. No final das contas, é sobre se expressar aquilo que nem sempre basta com palavras. Se expressar sobre a sua experiência individual.
Para quem quiser assistir, aqui está o vídeo completo no Youtube: